terça-feira, 6 de maio de 2014

Sia: Na Contramão do Caminho Certo.

     Lá em 2011, quando fiz minha primeira postagem nesse blog, minha mente, meus gostos e até meu texto eram muito diferentes de agora. É impressionante como muita coisa mudou. Ainda naquela época, fiz um post entusiasmadíssimo sobre Sia Furler, cantora ainda desconhecida do público, mas que eu acompanhava a algum tempo e estava cada vez mais apaixonado. Eu presumo que, daquele ano pra cá, a vida de Sia tenha mudado bem mais que a minha. De uma australiana pouco conhecida mundo afora, Sia passou a ser uma das mais interessantes e procuradas compositoras do mundo, e saiu de vez do posto de desconhecida, mesmo que não quisesse.
Sia sendo Sia, maravilhosa

   Sia passou a trabalhar com importantes nomes da música pop desde 2011, e a repercussão que suas músicas, mesmo cantadas por outros artistas alcançaram são notáveis. Ela compôs pra Christina Aguilera, Rihanna, Britney Spears, Beyoncé e Shakira e ainda gravou duas músicas com David Guetta que se tornaram  grandes hits, "Titanium" e "She Wolf (Falling to Pieces)". Também colaborou com Flo Rida e Eminem, e teve uma música em parceria com The Weeknd e Diplo na trilha sonora do filme "Jogos Vorazes". A credibilidade que ela passou a ter dentro da música internacional foi imensa.

Sia na capa da Billboard em 2013

    Agora, em 2014, Sia está voltando seus olhos para sua própria carreira. Ela está prestes a lançar um novo álbum quatro anos após "We are Born", se ultimo e excelente álbum de 2010. Só que agora a expectativa em torno desse novo trabalho com certeza aumentou, pois Sia não é mais tão desconhecida e a excelência de seu trabalho ficou bem evidente nas suas últimas incursões e parcerias musicais. Quem já conhece os trabalhos anteriores da cantora também pode sentir-se apreensivo, pois mesmo pregando que não quer ser famosa, ela poderia muito bem colocar sintetizadores e falar de baladas e festas  em seu próximo disco, afinal é dessa fonte de letras pouco criativas que, infelizmente, o pop tem sobrevivido nos últimos anos.

   Lyric Video de "Chandelier"
   
   "Chandelier", a música acima, é o novo single do futuro novo álbum de Sia. Ainda que seu último álbum tenha tido muitas músicas mais dançantes, nenhuma delas tinha aspecto tão diferente das músicas anteriores dela. Essa nova música, porém, soa diferente e mais comercial do que tudo o que Sia fez anteriormente. Ela mesma declarou que escreveu a música pensando em oferecê-la para ser cantada por Rihanna. Ainda bem que não o fez! "Chandelier" tem um aspecto mais comercial sim, mas é fácil perceber que ser comercial e falar de pistas de dança, bebidas e luzes de neon de casas noturnas não é a intenção da cantora.

   As músicas de Sia exigem interpretação, ela não é uma cantora simplista, e essa característica de seu trabalho, mais seu distanciamento do pop comercial estão na letra de "Chandelier". Ela começa cantando que garotas baladeiras não se magoam, que ela está sempre sendo chamada pra festas e que sempre sente o amor das pessoas. Depois ela bebe ( 1 2 3, 1 2 3 drink) e vira copos até perder a conta. No refrão, diz que vai balançar como um candelabro, viver como se não existisse amanhã, voar como um pássaro pela noite, sentir suas lágrimas secarem.

   O que pareceria mais um hino à vida noturna acaba se contradizendo na segunda estrofe, onde ela diz que o sol nasceu e que ela está acabada, que sente necessidade de sair de onde está e que sente muita vergonha. Então ela bebe novamente (1 2 3, 1 2 3 drink), e volta a falar que vai balançar como um candelabro, viver como se não houvesse amanhã etc.

  É claro que as interpretações são livres, mas eu penso no balanço do candelabro (Chandelier, em francês) como a vida noturna em contraponto à vida diurna da canção. Ela começa falando do amor que ela sente quando vai pras baladas, e na segunda estrofe da vergonha que sente por viver dependendo daquilo. Nas duas ocasiões, uma por alegria e outra por vergonha, ela bebe pra se confortar ( 1 2 3, 1 2 3 drink), e em ambas as situações vive  tudo o que ela canta no refrão, porém uma destas situações é uma alegria e a outra uma completa tristeza.

  É genial! Sia fez uma música pop bem próxima aos moldes das canções sobre baladas que a todo momento aparecem, porém ela critica o quão efêmera é a dependência das baladas e até um pouco da música pop, que sempre tocou em boates mas que hoje em dia só fala sobre boates. "Chandelier" nunca deveria ter sido dada a Rihanna, pois apesar da sonoridade, é a música que mais mostrará ao mundo a identidade e a diferença de Sia pra tudo o que faz sucesso nas rádios atuais.

   Se vai fazer sucesso é impossível dizer, mas não importa. O que realmente quero passar com esse post é que Sia é uma das artistas mais geniais que existem atualmente. Sua nova fase, iniciada com "Chandelier" pode causar estranhamento, mas já é possível ver que, mesmo tendo trabalhado com tantos artistas renomados e ficado em constante evidência no cenário musical, ela ainda é aquela Sia que consegue divertir, emocionar e viciar quem a escuta com sua música pop, que caminha na contramão do pop atual, ainda bem!


   

   

quinta-feira, 17 de abril de 2014

#SixSeasonsAndaMovie

    Apesar de gostar muito de acompanhar séries, as de comédia não costumavam ser opção. Eu achava que séries de comédia poderiam muito bem serem vistas de maneira aleatória e não sequencial na tv mesmo, que gastar tempo baixando ou acompanhando esse gênero não era necessário, pois eu nunca iria gostar de uma série de humor tanto quanto eu gostava dos meus dramas e sci-fis. Isso tudo foi antes de eu começar, ainda que desconfiado, a assistir uma série de comédia chamada Community. O que ocorreu depois dese fato é que essa série se tornou um dos meus assuntos preferidos e a minha principal recomendação no quesito séries.


    A história de uma faculdade comunitária, feita para perdedores, onde um advogado bonitão resolve formar um grupo de estudos de espanhol para tentar ficar com uma garota de quem está afim. Ele acaba porém reunindo um grupo improvável de estudantes, completamente diferentes entre si, que passam a conviver e enfrentar as loucuras dessa faculdade. A sinopse pobre e sem atrativos é, na verdade, o principal trunfo de Community. A série, à partir desse enredo, se tornou uma junção de referências e piadas sensacionais, que envolvem desde o mundo da própria televisão até assuntos considerados delicados como o preconceito racial e de gênero.

    Community é uma série despretensiosa, que ri de si mesma e do meio no qual está inserida. Dan Harmon, criador da série, soube fazer um show nerd sobre pessoas não nerds,  brinca com estereótipos e características que são completamente diferentes em cada personagem, proporcionando cenas e diálogos hilários. Como recompensa, quem assiste Community acaba se deparando com episódios inimagináveis, onde tudo pode acontecer, tudo mesmo, de uma dramática partida de RPG a um ataque zumbi ao som de ABBA.
   Infelizmente, o público norte americano parece não achar tanta graça. Audiência nunca foi uma característica marcante de Community, e desde o fim da terceira temporada o risco da emissora que exibe a série, a NBC, cancelá-la é crescente. Os fãs vêm fazendo campanhas para a sua renovação, e o conseguiram duas vezes. Na quarta temporada, porém Dan Harmon se afastou da autoria da série e problemas internos acabaram retirando um dos principais membros do elenco, o que deixou as coisas bem estranhas.

    Ainda assim, as constantes hashtgs e campanhas por renovação permitiram a Community uma quinta temporada. Esta está acabando hoje, e até o elenco está chamando os fãs para tentar uma última renovação para que a série acaba com uma máxima jogada em um dos episódios, onde é dito  que um bom programa de tv deve ter seis temporadas e um filme, Six Seasons and a Movie.

   Infelizmente, a quinta temporada contou com a saída de outro principal integrante do elenco protagonista, o que pode contar negativamente na hora de uma renovação. Ainda assim, boa parte dos fãs parece confiante e promete fazer barulho pedindo pela tão aclamada (inclusive na série), sexta temporada.

   Community se tornou, pra mim, a melhor série de comédia que já existiu. Não por realmente ser isso, mas foi com Community que eu passei a ver as séries de comédia como um produto a ser valorizado, assistido e consumido em sua totalidade. Acabei vendo que as séries de comédia são sim aquelas que nos fazem realmente fanáticos. e como fanático que sou espero que tenhamos mais um ano de diversão, o último, segundo os próprios personagens da série. Mesmo com elenco defasado e um aparente desgaste dos personagens restantes, queremos #SixSeasonsAndaMovie, pois como diz a abertura de Community "I can count the reasons I should stay, but one by one they are just fading away..."

segunda-feira, 17 de março de 2014

Feijão com Arroz: Clássico Subestimado³

     O que mais se nota do carnaval, toda vez que ele acaba, é a efemeridade daquela festa. A máxima do "Todo Carnaval tem seu fim" é mais do que título de música, é uma verdade. Tudo no carnaval é passageiro. É difícil dizer que nasceu no carnaval algo que consideremos duradouro. Esse pensamento traz uma certa melancolia pra festa, mas não deixa de ser verdade. Um exemplo mais do que claro desse rápido esquecimento são as músicas da época, os hits de carnaval. Todo ano eles mudam, e logo que a folia passa são esquecidos por nós e pelos meios de comunicação que costumam executá-los exaustivamente durante os quatro dias de festa. Hoje em dia, a maioria dessas músicas é totalmente descartável, feitas para serem rapidamente consumidas. Porém esse rápido consumo acaba afetando também algumas músicas e artistas que, em outa situação, não seriam negligenciados.

   Quem é Daniela Mercury? Como a mídia a define? Em qualquer lugar que se procure, Daniela Mercury é uma cantora baiana eternamente presa nos anos 90 e em seu dito maior sucesso "O Canto da Cidade". É impressionante como ela está sendo sempre ligada somente a essa música. Recentemente a cantora voltou aos holofotes ao assumir uma relação homossexual. Daniela Mercury é, para boa parte da nova geração, uma cantora de um sucesso só, que não saiu desse sucesso, e agora, pra não desaparecer completamente, resolveu criar polêmicas com a conservadora sociedade brasileira. Uma daquelas celebridades fúteis e sem nenhum conteúdo.

    Caro leitor, Daniela Mercury não é a inventora do axé. Quando começou a fazer sucesso, no começo dos anos noventa, a música baiana já era respeitadíssima até fora do país. O que Daniela fez foi ser, de certa forma, a precursora de uma explosão da música baiana em todo o país. Depois de Daniela Mercury é que conseguiram se tonar sucessos em todo  país as cantoras solos de axé que hoje dominam as paradas musicais brasileiras. Mais do que pioneira, no entanto, Daniela é esmagadoramente melhor do que todas as que a sucederam. A voz, o estilo, as letras, as canções. Daniela é uma pérola única na música brasileira, e dentro ou fora dos aos noventa, essa baiana fez muito mais que ser apenas a cor dessa cidade. Vide como principal exemplo o álbum lançado em 1996, chamado "Feijão Com Arroz".
"Perdoa meu amor..."

     A importância desse disco para a música brasileira é impressionante. Sendo o quarto disco de Daniela, vendeu cerca de dois milhões de cópias no Brasil e 250 mil cópias em Portugal. Ainda que nenhuma das canções do álbum tenha feito mais sucesso que a já citada "O Canto da Cidade", lançada no álbum anterior, o disco tem três canções que se tornaram sucessos imortais. "Nobre Vagabundo", primeira canção e que é, na minha opinião, uma das mais sensacionais músicas brasileiras que existem, "Rapunzel", daquelas que é só ouvir a introdução pra começar a pular e cantar, e "À Primeira Vista", canção de Chico César, belíssima na voz forte de Daniela.
    
    O clima do disco é delicioso e único. É axé, é música baiana, mas não há nenhuma daquelas músicas que acabaram tomando conta do estilo, com frases pobres e de baixo calão. Daniela não te manda descer, subir, rebolar, se mexer, nada disso. E ainda assim ficar parado ou indiferente à mistura e ao balanço delicioso das canções é impossível. Fora os três sucessos, as canções "Minas com Bahia", "Feijão de Corda", "Dona Canô", "Vai Chover" e a canção final "Vide Gal" são ótimos destaques. É um disco que vale em sua totalidade.


   Com um clima maravilhoso, canções divertidas, apaixonadas e sem aquela conhecida apelação que a música popular costuma carregar, aliadas à voz forte e marcante de uma vocalista versátil e competente "Feijão com Arroz" é um disco inesquecível. É uma pena ver que Daniela Mercury é hoje mais conhecida por sua vida pessoal e pelas piadas que fazem com sua outra música, que não deixa de ser muito boa. A capa desse álbum foi eleita a melhor capa de um disco brasileiro em 2005. Espero que a relevância e importância de Daniela Mercury para o cenário musical brasileiro voltem a ser reconhecidas e se sobressaiam à vida privada da artista, pois ela é muito melhor do que todas que a sucederam, e é muito mais do que uma artista que some quando acaba o carnaval, até porque ela é a primeira que canta, ela é o carnaval.
"À Primeira Vista" Sucesso de 1996


   

   





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sobre Serial Experimental Lain


   É bem provável que você já tenha se deparado com essa cena: Você e seus amigos juntos, em uma mesa de restaurante por exemplo, dividindo o mesmo espaço, porém todos com as cabeças baixas, de olho nos celulares enquanto a comida não chega. A internet restringe a interação real entre as pessoas. É mais fácil estar conectado, por vezes mais interessante estar online, tendo a facilidade da internet móvel a seu favor, do que se relacionar com as pessoas ao vivo. Não que a internet substitua certas necessidades humanas, mas é no mínimo notável o quanto estarmos conectados online nos desconecta da realidade.

   Pessoalmente, acredito que a facilidade de estar conectado o tempo todo se alia a impessoalidade da internet. Ao vivo, estamos sempre mais expostos,é mais fácil mostrarmos nossas imperfeições. Quando montamos uma rede social, é óbvio que, mesmo que não completamente, ocultemos nossos defeitos, aqueles que todos temos, mas que não os convém mostrar, por motivos óbvios.

   Exibido pela primeira vez em 1998 no Japão, Serial Experimental Lain é um anime já antigo que vagamente passa por essa temática do encanto do mundo da internet em detrimento do mundo real. Digo vagamente porque o anime tem indagações ainda mais profundas do que essa. Mesmo tendo sido lançado há dezesseis anos,fala sobre um assunto mais atual do que nunca.

  Lain é uma menina que vive num mundo onde existe a Wired, uma espécie de internet mais avançada que conecta o subconsciente das pessoas à rede sem precisar, necessariamente, de um computador. Quando Lain ganha um avançado modelo chamado Navy, ela vê em sua caixa de e-mails uma mensagem de uma colega de escola, chamada Shika. Nada estranho  não fosse o fato de que Shika havia se matado poucos dias antes da mensagem chegar.

  O efeito que o novo computador têm sobre Lain é algo a se notar. Pouco a pouco, a menina se afasta de sua vida e começa a viver grudada na Wired. Neste ponto alguns questionamentos são colocados, tendo como exemplo maior a relação da menina com seus pais, fria e distante. Aos poucos, percebe-se que, estando online é que Lain aparentemente é ouvida e vista pelas pessoas, visto que seus pais parecem pouco notá-la.

  A história ganha ares de mistério quando estranhos fenômenos na Wired começam a acontecer. A vida de Lain também começa a mudar quando ela passa a ser observada por pessoas estranhas e, mesmo sem saber como, vê seu nome associado aos estranhos acontecimentos. Será ela a responsável por tudo isso? Lain teria uma dupla personalidade na wired, uma garota completamente diferente do que ela era na vida real?

    É partindo desses mistérios que os treze episódios do anime vão se desenrolando, e enrolando a cabeça do espectador. Uma chuva de mistérios e diálogos aparentemente sem sentido, cenas de suspense em que não se sabe o que está acontecendo exatamente, uma gama de acontecimentos que se acumulam e só vão ser solucionados nos três últimos episódios, e mesmo assim não totalmente.

   Acima do enredo, porém, a discussão sobre o limite entre o real e o virtual, sobre a necessidade da internet e sobre a dependência dela em nossa vida são o ponto mais forte de Serial Experimental Lain.  O ar sci-fi e o clima constante de mistério, e ainda aquela  pegada "psyco" que ele carrega, fazem do anime uma boa pedida não só para quem curte animação, mas para quem gosta de refletir sobre o que vê.

Serial Experimental Lain tem um enredo instigante, cenas surpreendentes e traz uma série de teorias das mais interessantes sobre o limite psicológico e físico que há entre o mundo virtual, ao qual estamos cada vez mais acostumados e cada vez mais dependentes, do mundo real, ou supostamente real (vai que né?) que vivemos. Estão aplicados na série alguns aspectos que fazem dele uma obra única e interessantíssima. Há de se ressaltar que é um pouco difícil de assistir, por vezes muito confuso. Em contrapartida, é um anime bem pequeno, o que faz com que se veja bem rápido. Como curiosidade final, abertura e encerramento, isso na minha interpretação, tem uma profunda relação com o desfecho da trama ( que obviamente não vou contar.) Enquanto não existe pra nós uma Wired, que nos coloque de corpo, alma e mente em outro mundo, Lain pode ser visto até online. E vale a pena!!