domingo, 8 de janeiro de 2012

O Papa é Pop... A Genialidade por trás do Hit


É uma opinião pessoal, mas para mim, não existe no cenário do rock brasileiro banda mais incrível do que os Engenheiros do Hawaii. O power trio gaúcho ( que também já foi power quarteto, quinteto e afins) consegue abordar em suas letras temas diversos, pessoais ou coletivos, com letras que despertam identificação, curiosidade, estranheza, tudo ao mesmo tempo.

Dentre os dezoito discos já lançados pela banda entre 1986 e 2007, caso os fãs sejam consultados ( e esse é um dado do qual faço parte por ser fã confesso e incondicional), a preferência sempre fica entre a beleza musical ao vivo e em estúdio do semi acústico "Filmes de Guerra, Canções de Amor" (1993) e o folkrock oitentista, ruralista, simplista e gaúcho de "A Revolta dos Dândis" (1987). O papa é pop, alvo da minha análise de hoje, por vezes fica atrás ainda de seu sucessor, "Várias Variáveis", que inclusive é meu disco preferido dos Engenheiros.

Por que então vamos falar de O Papa é pop??

O Papa é pop é, na verdade, o disco mais conceitual dos Engenheiros. Todo o disco permeia um mesmo tema, a popularidade em si, da banda e de tudo o que era popular no fim da década de 80. É fato que, até lançarem o disco, a banda gaúcha era uma das mais populares entre os jovens, junto aos adorados da Legião, Paralamas, Titãs e todo o resto. Algo, porém diferenciava os gaúchos: A crítica. Enquanto as outras bandas, a cada disco recebiam elogios fervorosos dos críticos especializados, os Engenheiros "sofriam" com as críticas que recebiam. Os quatro primeiros álbuns, que traziam sucessos como "Infinita Highway" eram sucesso de vendas e entre o publico, mas a crítica parecia não ver a graça que o público via.

Eis que em 1990, chegamos finalmente ao disco em questão. O primeiro ponto é que o disco que trata de popularidade tem os dois maiores hits da banda, as musicas mais conhecidas hoje em dia: a própria O papa é pop, que faz alusão ao atentado que o até então papa João Paulo II havia sofrido pouco tempo antes, sendo alvo de um tiro dado por um fiel que o "amava", e a tocante Pra ser Sincero, música que hoje toca em qualquer bar com musica ao vivo.

Analisando o disco como um todo, percebe-se que letras, melodias, tudo converge para uma reflexão sobre ser pop. A primeira faixa do disco, O Exército de um homem só 1, começa com um tecladinho viciante, típico das musicas populares oitentistas. A letra porém, mostra um Gessinger que quer distância dos holofotes: "Não importa que só toquem o primeiro acorde da canção, a gente escreve o resto em linhas tortas, nas portas da percepção...", soa como a música acima de tudo. A terceira faixa é uma continuação, O Exército de um Homem só 2,que para muitos nem faz sentido (isso é dito inclusive na própria música).

A segunda faixa é a clássica "Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones". Essa faixa é interessante por ser um cover que uma banda chamada os Incríveis, que data do tempo da Jovem Guarda, fez de um cara italiano. O grande barato é que o vocalista Humberto Gessinger é um grande fã dos Incríveis, banda que, segundo ele, é esquecida por quem ouve coisas da Jovem Guarda. Os incríveis eram, de certa forma, esquecidos pela imprensa e pelos críticos da época, exatamente o que ocorria com os Engenheiros nos anos 80. Tal coincidência fez com que uma parte do hino nacional que os Incríveis haviam tocado em um lp especial fosse reproduzida na versão dos EngHaw, e influenciou até a capa do disco.
A continuação do disco traz a interessantíssima "Nunca mais poder", faixa que trata do prazo de validade que algo popular tem: "Todo mundo é eterno, todo mundo é moderno, como um relógio antigo...". Após esse início reflexivo, vêm a já citada Pra ser Sincero. Sucesso por excelência, a música não foge ao tema do disco. Primeiro por falar de relacionamento, ou você conhece um tema mais pop pra uma música? Ainda tem solo de piano, a guitarra e a bateria pra fechar o final, e aqueles sons de gente fumando e passos no final, que entre os fãs já gerou até discussão entre a relação entre essa musica e Refrão de Bolero, outro sucesso anterior. A sucessora, Olhos Iguais aos seus, segue o mesmo caminho.

Uma nova fase do disco se inicia com a sétima faixa, que dá nome ao disco, o hino "O papa é pop"... "E afinal o que é Rock´n Roll, os óculos do Lennon ou o olhar do Paul?". A faixa seguinte é pra mim uma das mais geniais: "A Violência Travestida faz seu Trottoir". Tentar entender o nome da música e o que diabos é Trottoir é um desafio pra todo novo fã de Engenheiros. A faixa diz claramente que, disfarçadamente, a violência está em tudo, fazendo um trottoir (que eu não vou revelar o que é, descubra!!). A faixa tem duas fases, na segunda, a paticipação de uma cantora, parece que ex vocalista da banda infantil Trem da Alegria, tratando do suicídio de alguém apaixonado por apresentadora infantil ( nessa época, Xuxa e Angélica meio que estavam em seus respectivos auges,ou seja, eram populares). A faixa tem um tom misterioso, forte e, em seis minutos, traz um novo conceito de popularidade tratado no disco.

Segue-se a ela a oitava faixa, "Anoiteceu em Porto Alegre", que tem oito minutos de duração, é cheia de mudanças instrumentais e tem uma certa participação inclusive na capa do disco. Os fins de tarde de nuvens vermelhas citados na letra ilustram e colorem o nome da banda na capa do disco.

O final épico de O papa é pop começa com "Ilusão de Ótica", faixa que brinca com mensagens subliminares, e que tem mensagens subliminares propositais. Na época dos lp´s, era moda procurar mensagens girando os discos ao contrário. Em um certo ponto da música, algo é dito rapidamente e, a ogirar o disco ao contrário, ouve-se a pergunta feita pelo vocalista "Ei, por que que ce ta ouvindo isso ao contrário, que que ce ta procurando hein??"

A última faixa, "Perfeita Simetria", segue em matéria de letra o mesmo esquema de Pra ser Sincero. A grande sacada é que a faixa tem os mesmos acordes, acrescentados de um piano, da faixa título do disco. O fim remete a tudo o que o disco queria dizer desde o começo.

Junte a tudo isso a imagem do papa João Paulo II tomado chimarrão, tirada durante a visita do pontífice ao Brasil, cercada pela engrenagem, símbolo dos Engenheiros, que temos também em imagem o conceito que é passado pelo disco. O papa é pop é, portanto, um dos discos mais inteligentes do rock brasileiro, visualmente falando, com letras e melodias que se encaixam num conceito poucas vezes visto na música nacional. Me despeço aqui esperando ter passado a vocês um pouco do que eu penso sobre a genialidade do rock dos Engenheiros do Hawaii. Vida longa ao rock brasileiro de qualidade, e que venha um dia discos tão bons quanto!
By Carlos

Um comentário:

  1. Perfeito, cara !
    Ótimo artigo sobre o meu álbum predileto dos caras.

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