quinta-feira, 17 de abril de 2014

#SixSeasonsAndaMovie

    Apesar de gostar muito de acompanhar séries, as de comédia não costumavam ser opção. Eu achava que séries de comédia poderiam muito bem serem vistas de maneira aleatória e não sequencial na tv mesmo, que gastar tempo baixando ou acompanhando esse gênero não era necessário, pois eu nunca iria gostar de uma série de humor tanto quanto eu gostava dos meus dramas e sci-fis. Isso tudo foi antes de eu começar, ainda que desconfiado, a assistir uma série de comédia chamada Community. O que ocorreu depois dese fato é que essa série se tornou um dos meus assuntos preferidos e a minha principal recomendação no quesito séries.


    A história de uma faculdade comunitária, feita para perdedores, onde um advogado bonitão resolve formar um grupo de estudos de espanhol para tentar ficar com uma garota de quem está afim. Ele acaba porém reunindo um grupo improvável de estudantes, completamente diferentes entre si, que passam a conviver e enfrentar as loucuras dessa faculdade. A sinopse pobre e sem atrativos é, na verdade, o principal trunfo de Community. A série, à partir desse enredo, se tornou uma junção de referências e piadas sensacionais, que envolvem desde o mundo da própria televisão até assuntos considerados delicados como o preconceito racial e de gênero.

    Community é uma série despretensiosa, que ri de si mesma e do meio no qual está inserida. Dan Harmon, criador da série, soube fazer um show nerd sobre pessoas não nerds,  brinca com estereótipos e características que são completamente diferentes em cada personagem, proporcionando cenas e diálogos hilários. Como recompensa, quem assiste Community acaba se deparando com episódios inimagináveis, onde tudo pode acontecer, tudo mesmo, de uma dramática partida de RPG a um ataque zumbi ao som de ABBA.
   Infelizmente, o público norte americano parece não achar tanta graça. Audiência nunca foi uma característica marcante de Community, e desde o fim da terceira temporada o risco da emissora que exibe a série, a NBC, cancelá-la é crescente. Os fãs vêm fazendo campanhas para a sua renovação, e o conseguiram duas vezes. Na quarta temporada, porém Dan Harmon se afastou da autoria da série e problemas internos acabaram retirando um dos principais membros do elenco, o que deixou as coisas bem estranhas.

    Ainda assim, as constantes hashtgs e campanhas por renovação permitiram a Community uma quinta temporada. Esta está acabando hoje, e até o elenco está chamando os fãs para tentar uma última renovação para que a série acaba com uma máxima jogada em um dos episódios, onde é dito  que um bom programa de tv deve ter seis temporadas e um filme, Six Seasons and a Movie.

   Infelizmente, a quinta temporada contou com a saída de outro principal integrante do elenco protagonista, o que pode contar negativamente na hora de uma renovação. Ainda assim, boa parte dos fãs parece confiante e promete fazer barulho pedindo pela tão aclamada (inclusive na série), sexta temporada.

   Community se tornou, pra mim, a melhor série de comédia que já existiu. Não por realmente ser isso, mas foi com Community que eu passei a ver as séries de comédia como um produto a ser valorizado, assistido e consumido em sua totalidade. Acabei vendo que as séries de comédia são sim aquelas que nos fazem realmente fanáticos. e como fanático que sou espero que tenhamos mais um ano de diversão, o último, segundo os próprios personagens da série. Mesmo com elenco defasado e um aparente desgaste dos personagens restantes, queremos #SixSeasonsAndaMovie, pois como diz a abertura de Community "I can count the reasons I should stay, but one by one they are just fading away..."

segunda-feira, 17 de março de 2014

Feijão com Arroz: Clássico Subestimado³

     O que mais se nota do carnaval, toda vez que ele acaba, é a efemeridade daquela festa. A máxima do "Todo Carnaval tem seu fim" é mais do que título de música, é uma verdade. Tudo no carnaval é passageiro. É difícil dizer que nasceu no carnaval algo que consideremos duradouro. Esse pensamento traz uma certa melancolia pra festa, mas não deixa de ser verdade. Um exemplo mais do que claro desse rápido esquecimento são as músicas da época, os hits de carnaval. Todo ano eles mudam, e logo que a folia passa são esquecidos por nós e pelos meios de comunicação que costumam executá-los exaustivamente durante os quatro dias de festa. Hoje em dia, a maioria dessas músicas é totalmente descartável, feitas para serem rapidamente consumidas. Porém esse rápido consumo acaba afetando também algumas músicas e artistas que, em outa situação, não seriam negligenciados.

   Quem é Daniela Mercury? Como a mídia a define? Em qualquer lugar que se procure, Daniela Mercury é uma cantora baiana eternamente presa nos anos 90 e em seu dito maior sucesso "O Canto da Cidade". É impressionante como ela está sendo sempre ligada somente a essa música. Recentemente a cantora voltou aos holofotes ao assumir uma relação homossexual. Daniela Mercury é, para boa parte da nova geração, uma cantora de um sucesso só, que não saiu desse sucesso, e agora, pra não desaparecer completamente, resolveu criar polêmicas com a conservadora sociedade brasileira. Uma daquelas celebridades fúteis e sem nenhum conteúdo.

    Caro leitor, Daniela Mercury não é a inventora do axé. Quando começou a fazer sucesso, no começo dos anos noventa, a música baiana já era respeitadíssima até fora do país. O que Daniela fez foi ser, de certa forma, a precursora de uma explosão da música baiana em todo o país. Depois de Daniela Mercury é que conseguiram se tonar sucessos em todo  país as cantoras solos de axé que hoje dominam as paradas musicais brasileiras. Mais do que pioneira, no entanto, Daniela é esmagadoramente melhor do que todas as que a sucederam. A voz, o estilo, as letras, as canções. Daniela é uma pérola única na música brasileira, e dentro ou fora dos aos noventa, essa baiana fez muito mais que ser apenas a cor dessa cidade. Vide como principal exemplo o álbum lançado em 1996, chamado "Feijão Com Arroz".
"Perdoa meu amor..."

     A importância desse disco para a música brasileira é impressionante. Sendo o quarto disco de Daniela, vendeu cerca de dois milhões de cópias no Brasil e 250 mil cópias em Portugal. Ainda que nenhuma das canções do álbum tenha feito mais sucesso que a já citada "O Canto da Cidade", lançada no álbum anterior, o disco tem três canções que se tornaram sucessos imortais. "Nobre Vagabundo", primeira canção e que é, na minha opinião, uma das mais sensacionais músicas brasileiras que existem, "Rapunzel", daquelas que é só ouvir a introdução pra começar a pular e cantar, e "À Primeira Vista", canção de Chico César, belíssima na voz forte de Daniela.
    
    O clima do disco é delicioso e único. É axé, é música baiana, mas não há nenhuma daquelas músicas que acabaram tomando conta do estilo, com frases pobres e de baixo calão. Daniela não te manda descer, subir, rebolar, se mexer, nada disso. E ainda assim ficar parado ou indiferente à mistura e ao balanço delicioso das canções é impossível. Fora os três sucessos, as canções "Minas com Bahia", "Feijão de Corda", "Dona Canô", "Vai Chover" e a canção final "Vide Gal" são ótimos destaques. É um disco que vale em sua totalidade.


   Com um clima maravilhoso, canções divertidas, apaixonadas e sem aquela conhecida apelação que a música popular costuma carregar, aliadas à voz forte e marcante de uma vocalista versátil e competente "Feijão com Arroz" é um disco inesquecível. É uma pena ver que Daniela Mercury é hoje mais conhecida por sua vida pessoal e pelas piadas que fazem com sua outra música, que não deixa de ser muito boa. A capa desse álbum foi eleita a melhor capa de um disco brasileiro em 2005. Espero que a relevância e importância de Daniela Mercury para o cenário musical brasileiro voltem a ser reconhecidas e se sobressaiam à vida privada da artista, pois ela é muito melhor do que todas que a sucederam, e é muito mais do que uma artista que some quando acaba o carnaval, até porque ela é a primeira que canta, ela é o carnaval.
"À Primeira Vista" Sucesso de 1996


   

   





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sobre Serial Experimental Lain


   É bem provável que você já tenha se deparado com essa cena: Você e seus amigos juntos, em uma mesa de restaurante por exemplo, dividindo o mesmo espaço, porém todos com as cabeças baixas, de olho nos celulares enquanto a comida não chega. A internet restringe a interação real entre as pessoas. É mais fácil estar conectado, por vezes mais interessante estar online, tendo a facilidade da internet móvel a seu favor, do que se relacionar com as pessoas ao vivo. Não que a internet substitua certas necessidades humanas, mas é no mínimo notável o quanto estarmos conectados online nos desconecta da realidade.

   Pessoalmente, acredito que a facilidade de estar conectado o tempo todo se alia a impessoalidade da internet. Ao vivo, estamos sempre mais expostos,é mais fácil mostrarmos nossas imperfeições. Quando montamos uma rede social, é óbvio que, mesmo que não completamente, ocultemos nossos defeitos, aqueles que todos temos, mas que não os convém mostrar, por motivos óbvios.

   Exibido pela primeira vez em 1998 no Japão, Serial Experimental Lain é um anime já antigo que vagamente passa por essa temática do encanto do mundo da internet em detrimento do mundo real. Digo vagamente porque o anime tem indagações ainda mais profundas do que essa. Mesmo tendo sido lançado há dezesseis anos,fala sobre um assunto mais atual do que nunca.

  Lain é uma menina que vive num mundo onde existe a Wired, uma espécie de internet mais avançada que conecta o subconsciente das pessoas à rede sem precisar, necessariamente, de um computador. Quando Lain ganha um avançado modelo chamado Navy, ela vê em sua caixa de e-mails uma mensagem de uma colega de escola, chamada Shika. Nada estranho  não fosse o fato de que Shika havia se matado poucos dias antes da mensagem chegar.

  O efeito que o novo computador têm sobre Lain é algo a se notar. Pouco a pouco, a menina se afasta de sua vida e começa a viver grudada na Wired. Neste ponto alguns questionamentos são colocados, tendo como exemplo maior a relação da menina com seus pais, fria e distante. Aos poucos, percebe-se que, estando online é que Lain aparentemente é ouvida e vista pelas pessoas, visto que seus pais parecem pouco notá-la.

  A história ganha ares de mistério quando estranhos fenômenos na Wired começam a acontecer. A vida de Lain também começa a mudar quando ela passa a ser observada por pessoas estranhas e, mesmo sem saber como, vê seu nome associado aos estranhos acontecimentos. Será ela a responsável por tudo isso? Lain teria uma dupla personalidade na wired, uma garota completamente diferente do que ela era na vida real?

    É partindo desses mistérios que os treze episódios do anime vão se desenrolando, e enrolando a cabeça do espectador. Uma chuva de mistérios e diálogos aparentemente sem sentido, cenas de suspense em que não se sabe o que está acontecendo exatamente, uma gama de acontecimentos que se acumulam e só vão ser solucionados nos três últimos episódios, e mesmo assim não totalmente.

   Acima do enredo, porém, a discussão sobre o limite entre o real e o virtual, sobre a necessidade da internet e sobre a dependência dela em nossa vida são o ponto mais forte de Serial Experimental Lain.  O ar sci-fi e o clima constante de mistério, e ainda aquela  pegada "psyco" que ele carrega, fazem do anime uma boa pedida não só para quem curte animação, mas para quem gosta de refletir sobre o que vê.

Serial Experimental Lain tem um enredo instigante, cenas surpreendentes e traz uma série de teorias das mais interessantes sobre o limite psicológico e físico que há entre o mundo virtual, ao qual estamos cada vez mais acostumados e cada vez mais dependentes, do mundo real, ou supostamente real (vai que né?) que vivemos. Estão aplicados na série alguns aspectos que fazem dele uma obra única e interessantíssima. Há de se ressaltar que é um pouco difícil de assistir, por vezes muito confuso. Em contrapartida, é um anime bem pequeno, o que faz com que se veja bem rápido. Como curiosidade final, abertura e encerramento, isso na minha interpretação, tem uma profunda relação com o desfecho da trama ( que obviamente não vou contar.) Enquanto não existe pra nós uma Wired, que nos coloque de corpo, alma e mente em outro mundo, Lain pode ser visto até online. E vale a pena!!


   


   


   

   

domingo, 26 de janeiro de 2014

A Arte do Sexo

   O Brasil é  um país de contradições. Essa é uma frase feita das mais comuns em discursos políticos e debates sobre a questão social em nosso país. Eu acabei pensando nessa frase enquanto travava, em minha cabeça, uma discussão sobre a moralidade do brasileiro. Para alguns chamada de conservadorismo, para outros, de preservação da moral e dos bons costumes, é o tipo de discussão chata que fica evidenciada pelos belos traseiros femininos sempre expostos em tv aberta, durante o dia, nos famigerados programas de domingo, em contraposição à não menos chata discussão sobre, por exemplo, o beijo entre homossexuais, que pelo que ouvi recentemente vai acontecer em novela das 21 horas, após anos de hesitação por parte da rede globo.

   O cinema, nacional ou não, tem mais liberdade para trabalhar com o erotismo e com o sexo do que a televisão. Isso acontece por razões óbvias: a tv carrega aquele estigma de ser algo para a família assistir unida na sala, foi feita para entreter todas as idades, sem ferir a moral de ninguém. É no mínimo contraditório esse diálogo que a tv brasileira faz com o sexo, com o erotismo. Os programas pra  família brasileira falam e mostram o sexo o tempo todo, mas de maneira falsamente velada.O que temos é a chamada apelação, a exibição do erotismo usada para ganhar ibope. Qualquer tentativa de sair disso gera mais polêmica, afinal é errado, principalmente para nossas crianças, a exibição desse sexo explícito na tv (só nãovale falar nada em dia de carnaval).

  Esse post não é, no entanto, uma discussão sociológica. Longe disso! Citei o que estava discutindo comigo mesmo porque esse debate interno me veio na saída do cinema, após assistir ao filme Ninf()maníaca, do diretor Lars Von Trier. Um filme que, antes de estrear, causou um imenso alarde devido às cenas explicitas de sexo, que atiçaram, e não há como dizer que não o fariam, a imaginação do público. Afinal, o que chegaria ao cinema, um filme sobre depravação com cenas bem trabalhadas, chocantes e esmagadoramente sexys?? O que, afinal, veio a ser o filme Ninfomaníaca??
    O sexo mexe com a imaginação do público. É um grande trunfo quando utilizado, pois sexo atrai a atenção de todo mundo. Não há como negar a brilhante produção, por exemplo, da série da HBO Game of Thrones, que impressiona em cada cena. Porém é um fato que as cenas de sexo naquela série são um dos principais chamativos para o público. Há diversas maneiras de retratar o sexo, e a maneira com que se faz isso desperta o interesse de todos (além dos corpos nus, claro). Ninfomaníaca ficou estigmatizado, antes do seu lançamento, como m filme que trabalharia o sexo da forma mais explícita e imoral possível, e ver um filme com aspecto tão alternativo sendo exibido em diversas salas de shoppings da cidade é evidência da curiosidade que o filme despertou.

    Lars Von Trier, diretor ousado, fez no entanto algo bem diferente do e se pensava. Há diversas cenas de sexo no filme, sexo explícito, com uma câmera nada tímida mostrando detalhes que, bem, você me entendeu. Só que o filme vai além disso. A história de Joe, ou pelo menos de sua versão mais jovem, que é o que a primeira parte do filme retrata, faz um paralelo da relação da protagonista com o sexo, sua descoberta e como essa relação, digamos, ousada, afeta sua vida e a vida de pessoas ao seu redor.
    O filme tem um certo aspecto de divã, com Joe, mais velha, contando a um homem que a encontra machucada num beco sua vida. Durante o diálogo, ela fala sobre suas angústias em relação a atitudes que tomou, enquanto retrata a ele sua vida como uma viciada em sexo. A relação nada convencional com seus muitos amantes, que ela na maioria das vezes prefere nem chamar pelo nome. À medida em que o filme avança, ela vai se encontrando com outras pessoas, amantes ou não, que passam por sua vida.

  Como aspectos positivos, tem-se como principal fator a genialidade de ser um filme que fala ( e mostra) o sexo, mas de isso não tomar conta da história. O sexo é parte da vida de Joe, mas o que o filme retrata é a vida dela, suas angústias, amores e descobertas. A trilha sonora também tem seus momentos bons e o humor, às vezes picante, presente no filme dá um toque delicioso. Christian Slater defende muito bem seu personagem, o pai da protagonista e Uma Thurman, no pouco tempo em que aparece, está brilhante. Sua sequência é a mais estranha do filme, mas ao mesmo tempo a mais interessante.

      O diálogo da protagonista com seu novo amigo é que, na minha opinião é o ponto mais estranho do filme. Algumas vezes, os personagens estão inspirados e a conversa atinge um nível de genialidade altíssimo. Outras vezes, porém, me soa um pouco forçado a relação que eles estão construindo. É claro que essa relação poderá ser mais bem esclarecida na segunda parte do filme, que mostra a vida da Joe mais madura.

     Ninf()maníaca é um filme polêmico, sem sombra de dúvidas, e que tem como chamativo a vida sexual da protagonista, que proporciona analogias divertidas e interessantes e cenas fortes. Porém, tem um ar de obra de arte, mesmo sendo sobre sexo, não o deixa tomar conta do enredo. Quem assiste ao filme podeaté querer ver as cenas quentes, porém está lá para ver o que afinal de contas acontece na vida de uma mulher doente, viciada em algo.  Ainda tem mais, a parte 2 vem aí e Lars Von Trier parece ainda ter algumas cartas na manga para concluir sua nova obra brilhantemente, sem falsa moralidade como a tv de um certo país que eu conheço. Vêm parte 02!!