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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Dia em que o espelho me viu (crônica)

Não me lembro da primeira vez em que me vi num espelho. Não posso portanto afirmar que foi a tanto tempo assim, nem quero fazê-lo. O que posso dizer é que me olhar no espelho, com o tempo, passou de um simples ato corriqueiro a uma necessidade de afirmação.
No princípio era a vontade. Eu sentia uma vontade incontrolável de me ver refletido ali, de estar ali. Era algo confortante e estranho ao mesmo tempo. Estranho porque, por mais que eu me esforçasse, meu reflexo não parecia me refletir totalmente.
Minha imagem, na verdade, era apática, distante, fria. Parecia não estar na mesma sintonia que eu. Mas esse aí não sou eu? Enquanto eu era como uma bomba de idéias, sentimentos, curiosidades e sensações, ele permanecia quieto, como uma cópia minha que não era eu.
E então eu vi. Nem sei quanto tempo depois compreendi que o espelho refletia na verdade meu espírito, meu estado de espírito. Aquela expressão triste vinha do que meu mundo era na realidade. Afinal, eu sempre estive acorrentado ao que me é imposto. Tudo o que eu penso ou desejo é sufocado por imposições que vêm de todos os lados. O espelho apenas refletia toda a amargura que, por dentro me consumia, mas que por fora se escondia. Essa foi a primeira revelação
Resolvi mudar, tomar uma atitude, passar à viver a minha própria maneira, rezando para que não fosse tarde demais. O simples ato de me decidir mudou minha imagem em frente ao espelho. Esse objeto mágico se mostrou ainda mais fantástico ao me deixar vislumbrar o futuro. Vi ali um eu que tinha menos do que esperava, com dedos apontados para ele e rostos de desaprovação. Mas o que mais chamou a atenção foi minha própria imagem. Aquele sorriso em meu rosto mostrou que aquele era o caminho certo. A felicidade que saia de mim era linda. Eu refletia felicidade, era o que eu queria refletir, era só o que eu podia, refletir. Então tive a segunda revelação... O Reflexo era eu...


By Carlos

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Eu no dia cinzento... (crônica)

Eu odeio os dias de chuva. E não é pela monotonia monocromática que eles trazem, até porque eu sou um admirador da ausência de cores. Eu odeio os dias de chuva por causa do que ele faz com as pessoas.
Caminhar enquanto chove mostra muito da natureza triste do ser humano. As pessoas parecem já despertar entristecidas pelo dia nublado, acinzentado e precocemente monótono que vem com a chuva.
Munidos das asas de morcego que protegem dos pingos gelados, os rostos sérios, rostos por vezes mais acinzentados que o próprio céu, nós simplesmente caminhamos rumo a nossos destinos, com nossos próprios pensamentos, nossos próprios fones de ouvido, nossas próprias vidas.

Ninguém escuta, Ninguém fala, Ninguém sorri. Ausência de Nós
Só o som da chuva caindo é ouvível, quando se repara nele.

Passeando e observando as pessoas, devido a complexidade e necessidade de interação dos meus pensamentos, é que reparo em algo: Um casal sob um guarda chuva.
Ele estava cabisbaixo, aparentava timidez, tentava parecer distraído e nem olhava nos olhos da garota. Ela, por sua vez, admirava o rosto dele com uma expressão que transpunha a felicidade.
O primeiro rosto feliz sob um céu caindo

Ali, como espectador da cena, vi que a chuva não tem efeito sobre nós. Nós é que a associamos à monotonia, à estagnação. Não percebemos que podemos também associá-la ao sossego, a tranquilidade, a paz.
Aquele casal me mostrou que um dia de chuva pode ser belo, pois para aquela garota não importava o tempo ou o clima, importava aquele momento, só aquele momento, que seria o mesmo se acontecesse e muma quarta feira de sol.

By Carlos...