O que faz um bom rapper? Boas letras, velocidade e habilidade em suas rimas ou boas batidas por onde ele fala o que pensa? Talvez seja sua performance ao vivo. A resposta a essas perguntas é um mistério pra mim, pois eu não sei fazer rap. Sei que exige habilidade, mas não sei fazer, prefiro não me arriscar. Mesmo não sendo um estilo musical do qual sou conhecedor, sempre me deparo com um ou outro rapper que chama a atenção com boas músicas, batidas e rimas.
Esse é bem o caso de Childish Gambino. No caso específico dele, acho que o que o faz incrível é a versatilidade de Donald Glover, a mente por trás desse alter-ego. Glover é ator, comediante, escritor, produtor e músico e tenta mesclar todos esses talentos para fazer de sua música algo não só muito bom como também original.
O disco "Camp", de 2011, primeiro que tive contato, é excelente em todos os sentidos. Além de bom rapper, as batidas de Gambino saem do comum e incluem elementos eletrônicos, de jazz, mixados com efeitos vocais e rimas rápidas. Um trabalho claramente elaborado e que consegue viciar inclusive e principalmente quem, assim como eu, não entende nada de rap.
Infelizmente, tantos talentos em uma só pessoa podem atropelar-se e em algum momento deve-se escolher com qual deles continuar, Donald Glover parece passar por esse dilema, pois disse em entrevista à MTV americana que os dias de Gambino podem estar contados e ele quer se dedicar a outras coisas (já não basta o Troy Donny??).
Ainda assim, vale a pena abrir seus ouvidos para Childish Gambino. Os discos Camp e Because The Internet são bastante surpreendentes e satisfatórios. Outra característica são os clipes do rapper, comumente divertidos e bem produzidos. Seja lá qual for a resposta, e mesmo não sendo um especialista em rap, ouso dizer que Childish Gambino tem tudo o que é preciso pra ser um bom rapper.
Então tá, vamos falar de "sofrência". Um termo que acabou ficando bem popular recentemente por conta de uma música em específico que não precisamos nomear. Sofrência é algo que existe a muito tempo na música. Quem nunca ouviu falar em Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e esses cantores que tocam naquelas juke boxes de barzinhos sujos das grandes cidades. Estes senhores são aqueles que com letras simples e canções carregadas de elementos hoje tidos como "bregas" fizeram muito sucesso cantando suas mágoas e dores. A chamada "sofrência"que agora se fala, é uma espécie de resgate desse tipo de música, mas obviamente que de forma genérica e forçada.
Waldick e a essência da sofrência
Quando me indicaram o disco de Johnny Hooker me disseram que era "sofrência pura". Eu logo descartei a possibilidade de ouvir, pois essa sofrência nova que alguns "artistas" vem fazendo é algo que não me atrai. Eis que alguns meses depois, me deparo com uma canção que me hipnotiza os ouvidos. Era de uma pureza, de uma força, de um talento e de uma interpretação singulares. Uma canção pulsante, nordestina em sua alma. Aquela música parecia que tinha vida própria. Obviamente que fui procurar o responsável por aquilo e acabei reencontrando aquele cantor que havia descartado anteriormente, o tal Johnny Hooker. Detesto generalizações.
"Alma Sebosa", canção acima, é sofrência pura. Não só na letra, mas como um todo. A interpretação, a composição em si, dão aquela sensação de que o intérprete está realmente sentindo tudo aquilo o que canta. E está mesmo. Johnny Hooker faz isso com maestria. É possível ver sua performance somente ao escutá-lo. O desespero, a dor. O cantor coloca sua alma na canção, o que a torna pura, visceral, viciante, desesperada.
E Hooker tem nessa entrega sua principal característica. O seu disco "Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!", como o próprio nome já mostra, é uma coleção de sentimentos gritados, chorados e rasgados em canções elaboradas, que misturam elementos do tropicalismo com estilos clássicos como o frevo e o bolero.
Johnny Hooker é uma grata surpresa pra quem gosta de música brasileira. Seu disco é cheio de elementos surpreendentes e sua interpretação é explosiva. Juntando tudo isso a suas letras, podemos dizer que ele sim é um artista de sofrência. Não como um termo generalizado, o que acabou acontecendo com a palavra, mas de verdade, pois seu sentimento que perpassa a letra da canção. Escrever uma letra triste pode ser bem fácil, mas no caso de Johnny Hooker, sua música parece refletir seu espírito, o espírito de um pernambucano talentoso, orgulhoso, apegado a suas origens e inovador ao mesmo tempo, mas acima de tudo, o espírito da verdadeira sofrência, aquela deliciosa que se transforma em música.
Numa improvável mistura de Bélgica, Ruanda, Hip Hop, música eletrônica e a língua francesa, pode-se esperar qualquer resultado. Elementos muito diferentes podem (ou não) se combinar de formas tão distintas que o produto final acaba sendo imprevisível. Imprevisível, aliás, é um adjetivo que cabe muito bem à música resultante dessa mistura. Uma música imprevisível, surpreendente e viciante, vinda da inspiração de um jovem cantor que você precisa conhecer, o maestro Stromae.
Paul Van Harver é o nome por trás do jovem nascido em Bruxelas, Bélgica, em 1985. Seu pai era Ruandês e o contato que tiveram foi muito pequeno. Apesar de parecer uma informação trivial, Stromae vai acabar abordando esse assunto em sua música mais à frente. Essa é, aliás, uma ótima característica da música dele, pois quando se procura as traduções de suas músicas, as letras são sempre interessantes.
Cantar em francês é um diferencial considerável para Stromae. Me parece que deixa a música dele com um charme e um destaque muito especiais. Mas esse não é o único trunfo. Muito bem produzidas, as músicas misturam batidas eletrônicas e de hip hop, são dançantes e nada repetitivas, o que acaba sendo bem surpreendente no meio eletrônico. Junte a isso as performances e clipes sensacionais, e temos um artista que consegue surpreender à cada música.
A música da apresentação acima é "papaoutai", onde Stromae fala da distância em relação a seu pai, que segundo dizem ele viu menos de vite vezes durante sua vida. Ela faz parte do excepcional disco "Racine Carrée", disco de 2013, onde o cantor mostra sua excelência e a qualidade de sua mistura, cantando sobre seu pai, sobre as diferenças entre os sexos, sobre os desabafos de alguém apaixonado, enfim, um disco dançante que não fala sobre o ato de dançar.
Stromae é irreverente, ousado e tem um som único. Uma qualidade de música pop muito pouco encontrada hoje em dia. Infelizmente seu trabalho ainda não é tão conhecido no Brasil, embora uma música dele tenha sido tocada à exaustão por aqui em 2011 (admita, você gostava muito dessa). Esperemos que ele continue irreverente daqui pra frente, pois ele tem muito a oferecer com sua música imprevisível.
Nunca fiz listas nesse blog porque eu nunca concordo com as listas que faço. Mas num ano em que os acontecimentos mais pareciam escritos por uma improvável parceria entre George R.R Martin e João Emanuel Carneiro, decidi fazer algumas listas de coisas que me chamaram a atenção, positiva e negativamente. Não há aqui intenção de eleger melhores ou piores do ano, quero apenas listar o que mais gostei de ver e ouvir num ano tão insano. Resolvi começar pelos filmes que mais gostei de ver no cinema esse ano. Alguns até ganharam posts por aqui, e é impressionante a variedade de temas que o cinema trouxe em 2014. Foi um ano cheio e bom para o cinema, e aqui estão alguns que aos meus olhos se destacaram.
1) NINFOMANÍACA
Tema do primeiro post deste ano, a obra em dois volumes de Lars Von Trier gerou tanto assunto que ficou em cartaz (ao menos a primeira parte) em cinemas comerciais tanto quanto em cinemas que exibem filmes considerados "alternativos". Com um enredo instigante e cenas de sexo explícito, o filme chamou muita atenção pelo que aparentemente mostraria, sexo sexo e mais sexo. Porém, acabou surpreendendo ao tratar da vida da protagonista Joe como uma viciada. A depravação que o filme prometia era seguida pelo drama da dependência que Joe tem do sexo, o que faz do filme uma obra surpreendente. Jason Slater e Uma Thurman tem atuações de arrepiar.
2) GRANDE HOTEL BUDAPESTE
Wes Anderson construiu um fime divertido e empolgante, com doses de humor, ação e drama, numa mistura colorida, animada, viva. Grande Hotel Budapeste tem um ar lúdico estilo musical muito bem preenchido com uma trilha sonora excelente e fotografia impecável. A história de como Gustave H. herdou o grande hotel e as aventuras com seu escudeiro e mensageiro do hotel Zero Mustafa foram uma das melhores coisas que vi em 2014.
3) GUARDIÕES DA GALÁXIA
A saga cinematográfica da Marvel se preparava, na cabeça de um quase leigo em quadrinhos como eu, para a chegada de Vingadores 2 e, por isso, Guardiões da Galáxia não tinha à princípio despertado uma grande expectativa em mim. O resultado disso foi eu sair do cinema tendo o visto o melhor filme da Marvel junto com Os Vingadores. O humor e as cenas de ação do filme são incríveis, como já de costume na saga Marvel, mas a trilha sonora de Guardiões, que também faz parte do enredo do filme, é um atrativo a parte, sensacional. "I am Groot!!"
4) VERSOS DE UM CRIME
Também tema de um post anterior deste blog, "Kill Your Darlings" ficou em cartaz em alguns poucos cinemas durante cerca de duas semanas e impressionou ao trazer um Daniel Radcliffe cada vez mais distante do Harry Potter que o imortalizou na memória da minha geração. Um filme sobre um jovem estudante de poesia que se recusa a aceitar os métodos tradicionais da universidade que frequenta e se junta a um grupo de revoltados afim de quebrar o que consideram caretice. Em meio a tudo isso, uma platônica paixão nasce entre os protagonistas, o que torna o destino de sua parceria incerto. Um filme impressionante e chocante ( até porque não é todo dia que o Harry Potter se apaixona pelo Harry Osbourne, que já teve um caso com o Dexter), com atuações excelentes e um enredo incrível. Dirigido por John Krokidas.
5) GAROTA EXEMPLAR
Ninguém espera que David Fincher vá fazer um filme ruim. Ele porém ainda consegue superar as expectativas que quem conhece seu trabalho deposita nele. Estrelado por Ben Afleck e Rosamund Pike (em atuação incrível) a história nebulosa do marido que procura sua esposa desaparecida é constituído de quase três horas de reviravoltas incríveis, cenas sensacionais e um dos melhores roteiros do ano. O filme é incrível, é até difícil elogiar, em todos os aspectos ele tem destaques .Fincher brilhou mais uma vez, veremos o que Globo de Ouro e Oscar reservam pra Garota Exemplar, esse merece.
6) INTERSTELLAR
Num planeta Terra destruído e dando seus últimos suspiros, um pai de família embarca numa missão espacial para encontrar um lugar onde a humanidade possa recomeçar. Entre o suspense, a ação e o drama, o filme de Christopher Nolan dividiu opiniões. Pessoalmente, gosto de Nolan e achei um grande filme. Ainda assim, é possível entender algumas críticas. Fica a cargo do gosto de cada um. Matthew McConaughey é um monstro, ator excelente.
7) JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA - PARTE 01
Na primeira parte de um final que promete ser épico, vemos uma franquia adolescente de sucesso abordar questões políticas de seu mundo de uma forma nova e revigorante. Depois de dois anos na arena dos jogos que satisfaziam o público da chamada capital, a protagonista Katniss se tornou o símbolo de uma revolução e agora tem que lidar com sua nova posição enquanto os distritos se encaminham para uma guerra. A mudança de foco do terceiro filme o deixou mais lento em relação aos anteriores, porém conseguiu preparar um cenário instigante para o quarto e último filme da saga. Foi uma mudança surpreendente e que trouxe um novo parâmetro para a saga, além de "preparar o terreno" para um desfecho emocionante.
MENÇÃO HONROSA: Embora eu não tenha visto no cinema e não seja um filme de 2014, mas de 2013 (pelo menos em sua chegada ao Brasil), quero deixar registrada à excelência do filme Nebraska, dirigido por Alexander Payne. Um drama sobre um idoso que acha que recebeu um prêmio de loteria e tenta a todo custo ir receber seu dinheiro, mesmo com todas as ressalvas de sua família, que afirma que se trata de um golpe. O filme é de uma beleza incrível, é emocionante e divertido e tem alguns toques de direção que o tornam ainda mais verossímil, como a ausência de cores. Filme incrível e que merece o destaque.
Aí estão os filmes que mais gostei em 2014. Sintam-se á vontade para discordar de análises e indicar mais títulos,visto que o critério que utilizei foi o meu gosto, que não é dos mais refinados, e a intenção da postagem que é a de mostrar e trocar opiniões. Bom filme a todos, e um cinema em 2015 que traga também muita coisa boa.